Lembranças de São José

Em uma tarde de março de 1997, me lembro como se fosse há 16 anos, peguei minha bola de futebol e, concentrado, me dirigi ao quintal para jogar. Ainda no aquecimento, vi meu pai chegar do trabalho e logo puxar assunto:

 
– Filho, tá treinando?
 
– Estou, pai. Semana que vem tem campeonato interno do colégio. Vamos jogar contra os caras da oitava. Preciso melhorar meu domínio e meu passe.
 
– Que dia vai ser esse campeonato?
 
– Dias 19 e 20.
 
– A quadra do seu colégio é coberta?
 
– Não, pai, não é.
 
– Neste caso não haverá jogo.
 
– Como não? Campeonato já está marcado.
 
– Seu professor deveria ter vergonha de marcar jogos na enchente de São José. Aprenda logo, meu filho, já que sua escola e seu professor não sabem disso, nunca marque um compromisso a céu aberto durante a enchente de São José. Este santo não falha e vocês terão de remarcar os jogos. Diga ao seu professor que o poeta não estava brincando quando cantou “as águas de março fechando o verão”.
 
Ao encerrar a frase, lentamente meu pai caminhou balançando a cabeça, dando sinais que de fato era um absurdo marcar os jogos para o dia de São José. Já na porta, ainda olhou para trás com aquele olhar de “o mundo está mesmo perdido”, depois entrou e eu fiquei no quintal com um turbilhão de sentimentos e uma bola sob o pé direito.
 
Primeiro tentei enxergar no meu pai uma espécie de homem divino, alguém com um dom especial de prever as coisas, algo tão grandioso que certamente minha vã filosofia jamais iria entender, mas logo em seguida fui tomado pelo sentimento de que, se era tão óbvio o erro do meu professor, então não se tratava de nenhum poder divino, embora nem eu, o professor e mais uns duzentos alunos, fôssemos capaz de perceber nosso absurdo.
 
Meu último sentimento, esse sim, bem mais coerente com meus 12 anos e com minha vontade de jogar o campeonato da escola, me disse que, na verdade, meu pai estava apenas levantando uma hipótese de que poderia chover e aproveitou o dia de um santo qualquer para coincidir com nosso calendário.
 
Tratei logo de esquecer do santo e cuidar do meu treino diário, mas, por via das dúvidas, olhava pro céu a cada dez minutos só pra checar a formação das nuvens.
 
O campeonato interno do colégio foi transferido para abril, uma vez que nos dias 19 e 20 de março choveu o dia inteiro. 
 
Fiquei puto, mas achei por bem transmitir ao professor o recado que meu pai havia mandado. Espero que ele tenha aprendido a organizar os jogos respeitando o calendário dos santos.
 
Eu não só aprendi a lição, como daquele dia em diante, lembrei junto com meu velho a chegada de todas as águas de março que fecham o verão.
 
Goiânia, 20 de março de 2013, numa noite chuvosa.
 
Romero Arruda
 
 
 

Um comentário em “Lembranças de São José

  1. Nadya disse:

    E este ano São José não deixou por menos… 3º dia de muita chuva…

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