DIAGNÓSTICO PRECISO

  

    

 Tarefa ingrata na vida era convencer meu pai a ir ao médico. Todas as vezes em que lembrávamos da necessidade de comparecer a um consultório, a resposta era sempre a mesma: – Porra nenhuma! Esses médicos não sabem de nada!

– Mas pai, você precisa fazer exames, acompanhar suas taxas…

– Meu filho, se a gente não tem nada, eles arrumam, se a gente tem alguma coisa, eles não sabem diagnosticar.

 Quando a necessidade era maior do que o desdém pela classe médica, era necessário acionar o único médico que estava acima do julgamento do meu pai: – Filho, preciso visitar o Faustão, não aguento mais.

 Faustão era uma referência carinhosa ao Dr. Fausto Jaime, médico notável e grande amigo do meu pai.

 Com raríssimas exceções, nunca vi meu pai na frente de outro médico. Recordo-me que certa vez indaguei ao meu pai qual era a especialidade do Dr. Fausto, ele me respondeu que quando o médico era bom ele sabia de tudo. – Meu filho, Faustão sabe de tudo!

 Boa parte da resistência aos médicos era justificada com a falta de precisão nos diagnósticos. Os noticiários colaboravam com esta tese trazendo relatos de erros ou ausência de conclusão na atividade de algum médico que, ao contrário do Dr. Fausto, não sabia de tudo.

 Lembro-me bem que meu pai afirmava que nunca encontrara em toda sua vida um diagnóstico tão preciso como o proferido por dona Jutinha, na pequena cidade de Codajás-AM. 

 Dona Jutinha era parteira, mas, chamando a atenção para o contexto e a região, ela era bem mais que isso. Nos meados dos anos 50, no interior do Amazonas, Jutinha era a parteira, a médica, a enfermeira, a curandeira e muito mais. Pois bem.

 Certo dia, dona Jutinha foi acionada por Antônio Afonso que, após estranhar certos ruídos na mata perto de sua casa, acabou flagrando sua filha, Amélia, 16 anos, descobrindo os prazeres da vida com o também adolescente Manoel Carlos.

 Antônio Afonso, desolado, precisava saber se a honra da sua filha fôra ofendida para tomar as providências tradicionais daquela época. 

 Sempre à disposição, dona Jutinha não tardou se arrumar e partiu com Antônio Afonso para encontrar Amélia e examiná-la.

 A tensão demonstrada por Antônio Afonso foi facilmente convertida no pragmatismo de dona Jutinha, que, ao adentrar a casa, já foi logo se dirigindo para a adolescente acanhada: – Amelinha, querida, vamos acabar logo com isso, a vida vai seguir. Entre para o seu quarto e tire sua roupa, vou lhe examinar.

 Silêncio ensurdecedor tomou conta da casa. A pequena senhora, com autoridade médica, entrou para o quarto e deixou toda família na sala curtindo a angústia da espera. 

 A mãe da adolescente chorava em silêncio por temer o destino da filha de apenas 16 anos. Os irmão menores esboçavam a cara da curiosidade. Poucos minutos depois, Jutinha reaparece na sala com o semblante firme da mesma forma que havia entrado no quarto. Afoito, o pai se apressou em perguntar: – E aí, dona Jutinha, minha filha perdeu ou não perdeu sua honra? Jutinha então respondeu: – Já tenho meu diagnóstico: Perder ela não perdeu, mas é importante vigiar, pois a virilha dela está cheia de rastro de homem.

 Escrevendo esta história pude ouvir as gargalhadas que meu pai distribuia ao relembrar esse diagnóstico e, assim, adoço minhas lembranças nesta data em que se completam 7 anos que não ouço mais sua gargalhada.

3 comentários em “DIAGNÓSTICO PRECISO

  1. Fausto Jaime disse:

    Caro Romero Arruda, realmente faz muita falta o se pai e meu grande amigo, Leônidas Arruda! Foi uma grande perda, lamentável e prematura! Um grande abraço do
    Fausto Jaime

    Curtido por 1 pessoa

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