CHARLLOTE DESCONSTRUÍDA

Charllote texto

Quando obtive uma resposta imprecisa do cliente Antônio Afonso, ao perguntar qual o melhor horário para nosso encontro, já fiquei um pouco desconfiado acerca da construção desta agenda.

– Vamos fazer o seguinte: a gente se encontra entre 12:00 e 13:00, lá no Rio Design Barra. Pode ser? – Me indagou Antônio.
– Ok, tudo bem, pode ser sim. Até lá.

A imprecisão de uma hora pune um lado e beneficia outro. Eu não tive escolha, cheguei às 12:00, meu cliente, beneficiado, poderia chegar uma hora depois e, ainda assim, ser pontual.
Depois de 20 minutos aguardando, resolvi ligar na esperança de encurtar minha espera. Celular desligado. Não vamos nos preocupar ainda, afinal, ele é médico, deve estar realizando algum procedimento, celular desligado é o correto.
Quando o ponteiro mostrou 15 minutos faltando para às 13 horas, resolvi arriscar mais uma vez. Nada. Caixa de mensagem. Sigo na espera, não há atraso, ainda.
O atraso só incomodou mesmo quando o relógio apontou 13:30. Antônio não apareceu, não atendeu, não escreveu e nem ligou o celular.
Façamos as contas, uma hora de táxi, mais uma hora e meia de espera e, talvez, mais uma hora para voltar até Botafogo.
Todo negócio tem seu risco, mas, no caso em análise, não tive nem a chance de correr meu risco. Vida que segue.
A frustração profissional era agravada pela frustração do estômago que me cobrava o almoço. Com a agenda livre e uma praça de alimentação no piso superior, parti em busca de uma refeição.
Um almoço executivo, com prato principal e uma tal sobremesa do dia, me chamou a atenção. Na hora de fazer o pedido, perguntei para a garçonete qual era a sobremesa do dia. Com naturalidade de quem responde “é um pudim de leite, senhor”, ela me respondeu “Hoje é dia de Charllote desconstruída, senhor”.
Convenhamos, com um nome desses deve ser uma maravilha, mas eu não fazia a menor ideia do que se tratava a tal Charllote, muito menos poderia imaginar seu processo de desconstrução. Não tive escolha, perguntei que diabos era o tal do doce.

– Ah, o senhor não conhece? É o nosso famoso pavê com doce de leite argentino derretido.

Pronto! Estávamos certos, não havia como uma sobremesa carregar um nome desses e ser uma coisa ruim. Coisas ruins possuem nome ruins, tipo, jiló. Mas Charllote desconstruída é outro nível.
O prato principal estava bastante honesto, um bom grelhado com tamanho suficiente, mas a verdade é que eu perdi todo o sabor do prato principal, completamente tomado pela expectativa do doce com nome de Charllote.
Comi o prato principal somente por obrigação, cumprindo tabela e com pressa de chegar ao fim e, enfim poder realizar meu encontro com a sobremesa desconstruída.
Já estava com a mão erguida para chamar a garçonete quando senti uma vibração na mesa. Era meu celular, mais do que isso, era Antônio Afonso, que não chegara às 12, nem às 13, mas, sim, às 14.

– Romero, boa tarde, me perdoe o atraso, estou aqui no café do primeiro piso, podemos conversar agora?

Pois é, a vida é mesmo real e de viés. O bolo que eu tinha ganhado do cliente me fazia mal, razão pela qual eu escolhi comer um bolo, no caso um doce, para me fazer bem. Sentimentos diversos no cotidiano das confusões urbanas. Pedi a conta.

– O senhor não vai querer conhecer a Charllote desconstruída?
– Não, obrigado, diga a ela que voltarei, um dia, quem sabe.

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