O LADO BOM DAS COISAS

Satisfação

            Outro dia, fui chamado atenção sobre meu olhar para as coisas do dia a dia. Segundo esse conselheiro, eu usava uma régua muito criteriosa para medir as coisas negativas e não dava o mesmo privilégio para as coisas boas de cada situação cotidiana.

            Criticando minha autocrítica, vi que não custava tentar fomentar a positividade e passei a buscar justiça entre elogios e reclamações. Logo no primeiro embate cotidiano, um cara me chamou de “belo”. Na verdade, ele tentou furar a fila na frente de uma senhora que aguardava o pão recém tirado do forno na padaria aqui perto de casa e eu o denunciei. Não muito satisfeito ele disse que eu era um “belo de um filho da puta”, mas eu já estava focado em dar mais valor nas coisas boas.

            Na mesma semana, sem carro, precisei me deslocar de Goiânia para Brasília. Com preguiça de encarar a rodoviária e a lentidão do ônibus, resolvi apostar em um aplicativo de carona. O caroneiro se apresentava como experiente, seguidor das regras de trânsito e rígido com horário marcado. Não vi como podia ser melhor. Marcamos às 16 horas em um posto de gasolina.

            Ele chegou às 17:20 com a cara mais tranquila que baiano em véspera de carnaval e disse: “preciso só calibrar os pneus e abastecer o carro, daí a gente já sai, já”. Pegamos a estrada junto com o por do sol, segundo ele, o melhor horário para viajar. Dirigia com o banco bem deitado, contemplando cada árvore do caminho, enquanto os pneus bem calibrados rasgavam a estrada a 70 quilômetros por hora. Todos os ônibus nos passavam.

            No auge da minha caça para enxergar o lado bom dessa vagarosa experiência, meu amigo naturalista me perguntou se eu ficaria chateado se ele acendesse um cigarro de maconha para aproveitar aquela viagem. Cheguei em casa às 22 horas, fedendo maconha e com dificuldades de encontrar equilíbrio emocional.

            Esta semana, chamei um Uber para me deslocar. Ao entrar no carro, notei o sinal de aviso de combustível na reserva. Segurei a crítica e fiquei quieto e concentrado para meu compromisso. Poucos quilômetros depois, fui surpreendido com o motorista espancando o acelerador do carro e exclamando: “Eu não acredito que esse carro vai fazer isso comigo!!!”. Eu tive serenidade para explicar que pisar com força no acelerador não enche o tanque, mas ele todo sem jeito tentou argumentar que não era falta de gasolina, mas sim um defeito mecânico.

            Não sabia ele que eu havia notado não só a luz da reserva, mas também se ele dirigia com as duas mãos, se tirava o pé da embreagem, se freava na curva, se usava os três espelhos e outros tantos detalhes que não passam despercebidos por um crítico virginiano.

            Ando ansioso para encontrar esse amigo conselheiro. Ele tinha razão quando disse que minha vida ia mudar. Em duas semanas já ganhei uma crônica.

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