O VARAL

secar-roupa

Era manhã de domingo e meu pai resolveu que deveríamos lavar as cobertas já prevendo a chegada do frio.
Recordo-me não ter gostado nenhum pouco da ideia e fui me arrastando para o fundo da casa encontrar meu pai que já estava no tanque e argumentava sozinho frases positivas para amenizar a tarefa: “De dois é rápido pra lavar”, “A água não tá fria não”, “Eu fico numa cuba e vc fica noutra”
Eu já entrei na dança sabendo que não ia ser rápido, a água tava fria pra cacete e a história de cada um ficar numa cuba só demonstrava o tamanho da coberta favorita dele. À época não era do meu conhecimento as classificações usadas hoje, mas a coberta do meu pai devia ser king.
Finalizada a parte do tanque passamos para segunda etapa: torcer.
Mais positividades: “De dois é fácil”, “Eu giro para um lado e vc para o outro”, “Vai para o varal praticamente seca”.
Depois que cada um girou três vezes o monstro em forma de coberta escapou da mão do meu pai e se jogou lindamente no chão da área de cimento. Foi de partir meu coração. Meu pai, sempre positivo, se limitou a proferir um sonoro “Puta que pariu!!!” seguido da sua risada marcante. Voltamos ao tanque para novo enxágue.
Depois de vencer o segundo passo com mais cuidado partimos para o último: estender
O varal estava na frente da casa preso a uma coluna da varanda e um esteio fincado na terra que não passava muita confiança.
Meu pessimismo realista dava conta de que mesmo torcida a coberta era pesada demais para o varal e com o agravante de que o varal estava por sobre chão de terra.
Leônidas Arruda, otimista convicto, não deu bola pra minha conta: “Porra nenhuma! Esse varal aguenta até um carro pendurado, pode ficar tranquilo que vai dar certo. Joga sua ponta que eu jogo a minha”.
Infelizmente eu estava certo, a coberta foi ao chão com varal, esteio, terra e tudo que tinha direito.
Nossa manhã estava agora jogada no chão e meu pai gargalhava como nunca. Eu todo molhado olhando pra ele todo molhado também sem entender de onde vinha tanta alegria. Três da tarde ainda estávamos envolvidos entre lavar a coberta e reconstruir o varal.
Hoje, vendo a máquina lavar minha coberta, me veio a recordação da nossa aventura e posso afirmar, meu querido pai, que compreendi que o mais importante daquele dia era o tempo ao seu lado e o som da sua gargalhada que ficou estendido para sempre no varal da minha lembrança.

2 comentários em “O VARAL

  1. Esse tipo de experiência pode fazer a diferença entre a nascente virar rio e correr para o mar ou simplesmente virar uma poça.
    Muito tocante. Obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olmo disse:

    Isso ai Arruda! O que vem fácil é mais difícil de lembrar.

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