A PANELA

panela

 

Armandinho era, dentre tantas coisas, um exímio estrategista. Depois da separação adotou um estilo minimalista e adorava dizer que rico não era quem mais tinha e sim quem menos precisava.

Mudou-se para uma casa pequena, cultivava sua horta no quintal, trocou seu travesseiro por um cano PVC. No armário tinha quatro copos, quatro talheres, três pratos e três panelas.

Trabalhando muitas horas por dia, Armandinho deu falta da organização e limpeza que seu reduto merecia. Recebeu a indicação de uma diarista e aceitou o conselho.
Sem muitas orientações para dar, disse o básico: “Quero uma casa limpa, preciso que você vença a poeira e lave o banheiro. Não tenho muito para organizar, trate bem os meus livros”.

A missão era fácil para Josefina que era experiente e já chegava aquecida no trabalho depois de pedalar alguns quilômetros. Se organizasse bem o seu tempo dava pra sair cedo do serviço.

Durante um mês a parceria funcionou bem, Armandinho satisfeito com a faxina semanal e a Josefina feliz com a falta de mobília do patrão. Ocorre que por razões desconhecidas, Josefina, num gesto infeliz de cleptomania, resolveu carregar uma das três panelas do Armandinho, que, na mesma noite, deu falta.

Armandinho, que já não andava muito satisfeito com a humanidade, ficou puto, não sabia se sentia mais pelo fato de ser roubado ou pelo fato da Josefina escolher roubar uma panela de um patrão que só tinha três.

Ajustando os horários no trabalho, Armandinho voltou pra casa mais cedo na quinta feira que sucedeu o ocorrido. Josefina fazia os últimos ajustes na casa quando Armandinho colocou em prática sua estratégia de guerra para vingar sua caçarola.

O guidão da bicicleta da Josefina recebeu alguns toques de fezes que o Armandinho cuidadosamente separou para seu plano. Assim que a Josefina saiu em direção a bicicleta para ir embora o Armandinho trancou as portas e janelas.

Pouco tempo depois a Josefina batia à porta com desespero pedindo para entrar e lavar as mãos, mas o Armandinho, sentado num caixote de feira no centro da sala bradava:
“Minha panela, filha da puta, minha panela!!!”

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