LATA VELHA

Na minha infância todos os carros que tivemos eram velhos. Ainda assim, sempre gozamos do privilégio de andar de carro, muito embora, eu fosse levar tempo para entender tal privilégio.

Parte da minha ignorância advinha do fato de escapar da real necessidade de viver sem o carro; a outra parte vinha da constatação de que nossos carros eram tão velhos e acabados que não tinham lá muita cara de privilégio.

Ter o carro, pagar seus impostos e trocar o óleo era o máximo que se dava conta lá em casa, portanto, maçanetas partidas, bancos rasgados,para-choque caindo, marcas de pilastras que moravam em pontos cegos, freio de mão calejado que só trabalhava no plano… Tudo dava um ar personalíssimo aos nossos carros e os reparos iamficando para o amanhã, sempre o amanhã: “Depois a gente ajeita isso”, afirmava meu pai com sua crença inabalável nos próximos 15 dias.

Ele, como sempre, tinha razão, fomos melhorando e com o tempo os carros também foram, mas guardo dos nossos carros mais velhos um carinhoso trauma. Eles me marcaram e me ensinaram muito. Lembro-me de algumas vergonhas como se as tivesse vivido ontem. 

Tínhamos um fusca branco, com o para-lama direito que eu mesmo amassei tentando passar entre duas árvores na minha primeira experiência como motorista em um pasto na fazenda do meu tio Mário Arruda, aos 12 anos.

Nosso fusca era uma coleção de problemas, tínhamos sempre no porta luvas um platinado, uma pedra para colocar no acelerador e um pano velho para passar no para-brisa que embaçava em 10 segundos de chuva.

Os bancos espetavam os passageiros com arames que saltavam entre as molas, o assoalho era tão fino que já tinha visão para o asfalto – meu pai alertava os passageiros: “Não pisa forte não que o teu pé pode varar lá embaixo” – o vidro do passageiro só podia descer até metade, quem descumprisse o aviso teria que posteriormente descer do carro e usar uma mão na manivela e a outra para ajudar a voltar o vidro para lugar. A partida era quase um segredo de cofre, a chave tinha de ir suavemente até o primeiro estágio, retornar mais suave ainda e depois avançar com raiva para acionar o motor. Abrir a porta por dentro era quase dançar um tango sofrido, havia de seabraçar lateralmente a porta, puxar para dentro, suspender e depois empurrar para fora no auge da dança.

Certa vez, na saída da escola, o fusca resolveu inovar na escala dos defeitos. Cada vez que meu pai acionava o freio o fusca buzinava a plenos pulmões pela Avenida Mutirão. Considerando que a avenida tem um semáforo em cada quadra e que possui inclinação não é difícil imaginar como foi nossa volta pra casa.

Não sei até hoje como não levamos um tiro, cada esquina era um rolo, foi muito lucro ter de carregar somente os xingamentos pelas próximas quatro gerações.

Meu pai freava, o fusca buzinava. O motorista da frente começava a fazer gestos mostrando o sinal fechado, meu pai soltava o freio, o barulho acabava, mas o carro voltava, daí era o motorista de trás que começava a buzinar e fazer gestos, aí meu pai freava e a buzina cantava outra vez. 

De vez em quando meu pai tentava colocar o braço para fora e fazer também alguns gestos para contar, por mímica, que a culpa não era dele, mas sim, do temperamento particular do fusca. A ideia piorou muito as coisas porque meu pai não tinha fama com mímica e os outros motoristas entendiam tudo como provocação do velho baixinho no seu velho fusquinha. 

Sou muito grato pelo esforço que meus pais fizeram para nos manter com o conforto de ter sempre um carro em casa e, acima de tudo, sou um eterno defensor da paz no trânsito.

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