AQUILO QUE SE SENTE

Kind granny pencil drawing

 

Os oito ou nove que aguardavam a vez na sala de espera da clínica, incluindo este narrador, tinham em comum um celular na mão e uma história para contar ao médico. Apesar da tv ligada, do revisteiro cheio, do barulho do corredor, da importunação da obra ao lado… todos estavam ao celular.

Todos, menos Dona Etelvina, que levará o registro de que viu a era do smartphone chegar, porém, seus cabelos brancos não tinham mais disposição para aprender novo ofício.

Dona Etelvina chegara com semblante de sofrimento, talvez fosse a razão da consulta, talvez fosse a caminhada com obstáculos até a sala de espera. Aparentava mais de 80, mas, daí dizer que já tinha 90 poderia ser um exagero. Estava acompanhada de uma filha que, apesar de madura, conseguiu embarcar na era do smartphone.

Depois de acomodada foi que Etelvina se viu sem lugar. Viu um bando de gente que não se via, incluindo a filha, todavia, nada viu em suas mãos além das marcas do tempo.

A mão que não portava celular, por certo, já cumprira tarefas nobres. Teria tratado muitos descendentes, aberto destinos? Teria, quem sabe, levantado uma tonelada de giz para fazer milhares sentirem o peso da liberdade das letras? Poderia também ter anotado incontáveis livros no cartório para contar a história de tantos nascimentos, ou óbitos, ou casamentos? Talvez tivesse simplesmente separado com cuidado a lenha para alimentar o fogão que depois alimentaria a família com quitutes de fazenda daqueles com sabor de passado.

Teorias jorravam na cabeça desse narrador que seguia preso ao telefone, porém, com inveja por saber tão pouco perto daquelas mãos cuja experiência, seja qual fosse, dera tanto saber.

O aparelho celular vendia aos presentes a ilusão de estarem livres daquela sala, como se saíssem pela janela e dessem adeus a mesmice das salas de espera. Estavam presos fingindo voar. Foi então que D. Etelvina, única refém da espera, emitiu um suspiro, um suspiro que não se podia reconhecer a emoção. Reparei que D. Etelvina mudara de posição enquanto eu me perdia no mundo digital, estava mais emborcada, fizera um apoio com a mão para escorar seu rosto e parecia olhar para o chão.

Sua filha, ao escutar o suspiro e notar a posição da mãe, rompeu o silêncio da espera com uma indagação em tom preocupado:

 

– Mamãe, você está sentindo alguma coisa?!

 

O tom da pergunta trouxe uns três viajantes de volta para a sala.

Etelvina, sem trocar de posição, respondeu sem muita força:

 

⁃Tô.

 

A resposta fez arregalarem os olhos de sua filha que, desgrudando as costas da cadeira e pousando sua mão, já livre do celular, sobre o joelho de D. Etelvina, perguntou em tom severamente mais preocupado:

 

⁃ O que você está sentindo, mamãe? Diga! O que foi que você tem?

 

Praticamente todos os smartphones trouxeram seus donos de volta e agora estávamos todos aguardando a resposta da senhora que não tinha celular, mas sentia alguma coisa. Até a recepcionista, que estava escondida atrás do balcão, fez-se ereta para saber como proceder depois da resposta.

Dona Etelvina, como quem zomba do tempo, não teve pressa para aliviar a aflição da filha, nem a curiosidade dos espectadores. Mexeu-se lentamente e, olhando para cara de espanto da filha, respondeu em tom macio:

 

– Sono…

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