A PELE QUE HABITO

Não é de hoje que pessoas estranhas me julgam como se eu já tivesse vivido muitos ontens. Quando menino, aos olhos dos outros, já era moço. Quando moço já fui homem e, seguindo a lógica, agora, com 34 anos, estou marchando a passos firmes rumo ao índice dos idosos.

Sempre que rola um constrangimento da pessoa descobrir que errou muito a minha idade surge um discurso curioso para justificar a diferença de 15 ou 20 anos a mais que ganhei: “É o jeito que você se veste”, ou “É a sua postura que é muito séria”, ou ainda “A barba envelhece demais a pessoa”. Fato é que o incômodo é maior nos palpiteiros do que em mim. 

Já perdi alguns minutos buscando esse por que, mas, depois de tantos casos, vejo que o melhor é colecionar as histórias e ver até onde minha aparência vai enganar as pessoas.   

Sou mais velho que meu irmão 4 anos, mas, segundo uma recepcionista em Goiânia, eu poderia ser pai dele. Passávamos eu e o Fabrício pela recepção quando ela resolveu sair do WhatsApp para me abordar:

– Seu Romero, boa tarde, eu não sabia que o senhor tinha um filho.

Outro dia, puxando conversa com uma atendente de loja que estava grávida de menina, comentei que lá em casa havia uma linda menina de 2 anos que nos enchia de alegria. Ela sorrindo comentou:

– Aí o vovô fica só babando, né?

Passei um tempo em silêncio tentando entender como ela poderia imaginar que eu morasse com meus pais até, enfim, entender que o vovô, na visão dela, seria eu.

Jogando o tempo fora numa distribuidora de bebidas perto da minha casa, degustava em silêncio minha Heineken enquanto os homens, todos de cabeça branca, falavam de como a vida era melhor no tempo deles e se revoltavam com os absurdos de hoje em dia.

Foi aí que o dono da distribuidora, também de cabeça branca, tentou me incluir na conversa e, me puxando pelo braço, indagou:

– O que você acha disso tudo? Nós devemos ter a mesma idade, eu estou com 55 e você?

Semana passada, um cliente/amigo, que já possui carteirinha de idoso há alguns carnavais, num gesto de pura camaradagem, resolveu compartilhar comigo uma matéria jornalística que narrava todos os benefícios da vida sexual ativa depois dos 60. Agradeci.

Pelo andar da carruagem, não vai demorar para que alguém  sugira que eu entre para o livro dos recordes como homem mais velho do mundo. Aviso aos navegantes que pretendo viver até os 100, mesmo que pareça 200.

Ilustração: Guilherme Roemers

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Um comentário em “A PELE QUE HABITO

  1. Eldejames disse:

    Minha esposa é mais velha que eu. Ou melhor nasceu antes, para ficar agradável. Nós, quando o assunto é idade, fazemos uma brincadeira. Digo, aos outros, logo que ela é mais velha que eu. Sempre escuto com uma entonação de voz firme, de dúvida que é “mentira”. Mas a palavra mentira sai gritada. É muito engraçado.

    Curtido por 1 pessoa

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