ELA

Quantos anos ela tem?

Diante de tamanha monstruosidade praticada seguidas vezes, por gente tão próxima, com o acusado acusando outros do mesmo crime, será que vale a pena dizer que outros 6 anos foram DELA?

Prefiro acreditar que ELA não teve nenhum ano para chamar de seu, e que a vida, em seus roteiros impensáveis, trouxe-lhe, não bastasse tudo, uma gravidez, fruto de estupro, do tio, no décimo ano do seu nascimento, no quarto ano ininterrupto de destruição do seu direito sagrado de ser criança. Porém, muito porém, foi mais essa tragédia, por cima de tantas outras, que permitiu que ELA rompesse a contagem desastrosa dos anos de tortura, dos meses de abuso, das semanas de medo, dos dias de dor. (Penso que esse seja o parágrafo mais dolorido que já escrevi).

Partindo do princípio que somos influenciados pelo nosso meio, quanto de influência há em 4 anos de estupro? E qual a influência se levarmos em consideração que esses 4 fazem parte do total de 10.

O aborto legal não carece de opiniões alheias, ele é técnico. O ato está sob a luz dos princípios, da razão, daquilo que é humano, que faz justiça; com recortes específicos que somam a legislação, o saber jurídico e a medicina em defesa da vida e da saúde.

Reservo-me o direito de desprezar no texto, embora me tire o sono na cama, todas as manifestações de difícil classificação civilizatória, que mobilizam pessoas para invadirem hospital, chamando médico de assassino e jogando ELA, sempre ELA, nossa pequena vítima, no porta malas do carro para exercer um direito, que provavelmente ela nem sabia que tinha, de uma relação sexual que nunca deveria ter acontecido, de uma vida que há 10 anos não deu as caras, só as costas.

Deus, Jesus, família, cidadão de bem, moral… são os nomes mais comuns, usados em vão, para esconder a pobreza fétida da hipocrisia e sombra mórbida da ignorância. ELA não precisa dessa gravidez para coleção das suas cicatrizes e nem peso do ódio de vocês.

Minha fala busca ressonância no conceito de cidadania, se impõe no exercício do bom direito, ecoa na esperança ingrata do orgulho de ser brasileiro e chora no doce ofício de ser pai da menina mais linda do mundo.

Para o estuprador, os rigores exemplares da lei. Para ELA, o direito de começar a contar os anos para si, com acesso pleno a toda assistência médica, social, educacional, com doses infinitas de felicidade. Que os sorrisos sequem suas lágrimas.

Levantamento recente da BBC Brasil narra a vergonha em números ao nos lembrar que ELA não está sozinha. A cada hora, pelo menos 4 meninas com menos 14 anos são estupradas no solo que conhecemos como “Pátria mãe gentil”. O Brasil que conheceu a história DELA, não pode se esquecer nunca que por aqui, ELA, tá sempre no plural.

Que o futuro dessa menina seja melhor que o futuro do Brasil.

ELA, somos nós.

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