ZILDA PEREZ

Ontem a D. Zilda, minha querida vó, decidiu descansar. Seus últimos dias foram marcados por luta que seu corpo de 90 anos não tinha mais condições de enfrentar. Sendo assim, com a ressalva do nosso egoísmo de sempre querer mais tempo de quem a gente ama, seu falecimento fez justiça com sua história que não merecia acumular novos capítulos de sofrimento.
Fiquei honrado em falar com nossos familiares durante a despedida para marcar na lembrança que tive o compromisso de registrar e agradecer a importância da vida dela nas nossas vidas.
Seu principal ofício foi servir a todos da família, irmãos, filhos, sobrinhos, netos e bisnetos tiveram em sua casa, além do afeto, refeições, cama macia, roupa lavada e uma conversa sempre bem humorada.
Muitas mãos que hoje exercem tantas profissões, precisaram muito das mãos calejadas da Dona Zilda na pia, no tanque ou no fogão para que fosse possível trabalhar ou concluir seus estudos.
Zilda Perez foi coadjuvante na sua própria vida para ser protagonista no nosso coração.
Descanse em paz, Vó, obrigado por tudo.

QUALQUER UMA

Pentium 486

No final da década de 90, vivi uma tarde diferente. Meu pai dizia que nos faria uma grande surpresa e nos levou a uma loja de eletrônicos. Eu tinha uns 13 anos e, meu irmão, 8 ou 9. Era um baita presente, muito embora, a gente não sabia o tamanho da revolução que nos aguardava mais adiante. Voltamos para casa transportando um Pentium 486 e tudo de mais moderno que poderia sonhar uma família comum de Goiânia.

Não demorou para nossa primeira assinatura de internet. A novidade era tanta que, nesta época, ao fazer a assinatura, o assinante indicava alguém para passar uma tarde no escritório da empresa para aprender entrar em sites ou criar um e-mail, por exemplo. Coube a mim a tarefa de assistir aula de internet e aprender o “www.”.

Eram tempos de muito sono na escola, uma vez que a internet discada tinha preço alto durante o dia e uma tarifa muito reduzida depois da meia noite. Impossível não lembrar da cantoria que o computador fazia em parceria com o modem para acessar a tal da internet. Salas de bate papo Uol, Mirc, Icq, Winamp e tantas outras coisas passaram a fazer parte do “noite a noite” lá de casa.

Eu e meu pai tivemos uma relação muito musical. Não sabíamos tocar nem cantar nada, não tínhamos nenhum dom, mas aprendi com ele o hábito de ouvir, estudar as letras e cantar, seja no banheiro ou nas rodas etílicas. Essa premissa fez meu coração bater mais forte quando lia sobre a revolução do Napster.

O nosso toca fitas vivia rodando as coletâneas que meu pai fazia ouvindo a Executiva FM. Todas as músicas continham o barulho do acionamento do gravador, a sua interrupção e, por várias vezes, algum comentário da radialista charmosa dizendo o nome da rádio e hora exata. Vez ou outra o sono apertava e acontecia da música acabar e gravador ainda pegar um pedaço de propaganda e uma eterna exclamação do meu pai acordando: “Porra!!…       tap”.

Era sofrimento preencher uma fita para rodar no carro e agora chegava o tal de Napster e dizia que você poderia simplesmente pegar a música que quisesse com qualquer pessoa do mundo. Naquele dia eu sabia que a minha vida ia mudar e das fitas também. Não se encontra mais pessoas rodando uma caneta Bic para salvar uma fita engasgada.

Com o Napster devidamente instalado, com dois cliques, o milagre da transferência MP3 começava diante dos meus olhos. Depois de uma madrugada inteira para baixar um arquivo de 3 megas, as caixinhas de som alojadas por detrás do monitor, tocavam Chiclete com Banana importado de um estranho sabe-se lá de onde.

Finalmente acordei meu pai e lhe contei do Napster:

– Pai, todas as músicas que você fica esperando tocar no rádio a gente vai poder procurar no Napster e, se alguém tiver essa música no computador, nós vamos poder pegar a música pra gente.

– E a pessoa vai ficar sem a música dela?

– Não, ela vai continuar com a música, é como se fizéssemos uma cópia.

– E a pessoa vai deixar?

– Vai, essa é a ideia do programa. É para compartilhar mesmo.

– Vou pensar então em uma música que não tenho para ver se tem nesse negócio. Tem qualquer música?

– Qualquer música!

Meia noite, a hora sagrada da internet discada, estávamos sentados, eu e meu pai, que guardava uma sincera desconfiança, para a missão de procurar qualquer música do mundo:

– Qual música você quer procurar, pai?

– Pode falar qualquer uma?

– Qualquer uma!

– Do mundo inteiro?

– Do mundo inteiro!

– Então eu quero essa aqui: Na nãnãnã Na nãnãnã Na nãnãnã Na nãnãnã.

Eu não sabia bem como reagir. Meu pai não lidava muito bem com a pressão da revolução digital e, ao mesmo tempo, estava fascinado para seu passaporte de inclusão digital. A reputação do Napster estava pronta para ser arrasada ainda em seu início.

– Você sabe o nome dessa música, pai?

– Eu não!

– E você sabe pelo menos quem canta?

– Não, tu não ‘disse’ que ele achava qualquer uma?

– Sim, mas precisamos saber o nome, o cantor, ou pelo menos um pedaço da música.

Já completamente mudando de tom, meu pai insistia:

– Mas eu cantei um pedaço!

– É, mas não foi com palavras, foi apenas um nãnãnã de melodia. Como o programa vai adivinhar qual música é?

– É isso que eu quero saber! Foi você quem falou que ele achava qualquer uma. Já vi que ele não acha é porra nenhuma. Se eu soubesse o nome, o cantor e letra eu não precisaria dele. Por mim pode jogar no mato.

Assim terminara nossa interação familiar com o Napster. Jogar no mato era uma sentença definitiva de tudo aquilo que meu pai julgava não prestar. Demorou muito tempo para meu pai beirar o Napster.

Vale dizer que fiquei intrigado por não entregar a música que ele queria. Depois de quase 1 ano de trabalho para decifrar o Na nãnãnã, finalmente achei a música e coloquei como surpresa na playlist dele.

E aí, sabe qual é?

 

 

Expectativa X Realidade

Air Climber foto 1

 

Eu sou daqueles que já passou horas assistindo comerciais da Polishop e imaginando como seria a vida como auxílio luxuoso dos produtos fantásticos. Para o azar da Polishop e, talvez, minha sorte, eu nunca comprei uma agulha deles, seja por falta de foco, tempo ou dinheiro.

Seguia tranquilamente somente sonhando com uma frigideira aqui, um barbeador acolá ou um daqueles aparelhos que dão choque pra caramba, mas os atores seguem sorrindo e felizes com seus corpos sarados.

Ocorre que minha companheira, parceira de vida e de comerciais da Polishop, mais organizada e focada do que eu, conseguiu efetivar uma compra. Como toda compra que se faz por lá, a promessa era de revolução na sua vida, divisor de águas.

Trata-se de um aparelho para exercícios físicos denominado “Air Climber”, como tudo que vem lá, ele é leve, portátil, fácil manuseio, fácil de guardar e, com apenas alguns minutos por dia, a gente fica sarado e saudável sem precisar sair de casa. De brinde, ainda tivemos a graça de ganhar um monte de DVD’s com aulas práticas e animadas que nunca iremos assistir porque nem aparelho de DVD nós temos.

Agora em janeiro, com a temporada oficial das dietas, resolvemos que vamos fazer uso da máquina revolucionária.  O problema é que eu não sabia do desconforto que me esperava.

Bem diferente da cara dos atores que ilustram a propaganda, a minha cara foi um mix de constrangimento e frustração. Quando subi no “Air Climber” e comecei a “caminhada” a sensação foi muito estranha, se me pintassem de azul todos achariam que eu era um Avatar praticando marcha atlética, um desastre. Fiquei com 2,30m de altura alternando perna direita e esquerda com um rebolado obrigatório que até então desconhecia.

Com as costas para janela ficava com a impressão que todas as pessoas do outro prédio estavam me olhando. Ficava de frente, era pior, não podia ver uma sombra de vizinho que já pulava fora do aparelho. Cinco minutos de tormenta. Agora, além de gordo, me sentia triste.

Em nome da saúde e da perseverança amanhã vou subir no aparelho enquanto a cidade ainda dorme, com a luz apagada, cortinas fechadas e, quando a humilhação passar, mando a foto sorrindo para vocês. Feliz 2020.

HUMANIDADE?

Afogamento

EVANGELHO

(Paulo César Pinheiro e Dori Caymmi)

Êta mundo que a nada se destina
Se maior se faz, mais se arruína
Se mais quer servir, mais nos domina
Se mais vidas dá, são mais os danos
Se mais deuses há, mais são profanos
Estes pobres de nós seres humanos

Êta vida, essa vida de infelizes
Quanto mais coração, mais cicatrizes
No amor é que a dor cria raízes
De dentro do bem é que o mal trama
Da felicidade cresce o drama
Dessas tristes de nós vidas humanas

Êta tempo que em pouco nos devora
O pavio da vela apagará
Quanto mais se partir tempos afora
Mais nos tempos de agora se estará
E mais tarde quando o tempo melhora
A nossa mocidade onde andará?

Êta morte que acaba tempo e vida
O mundo não conseguiu saída
É o fim mas pode ser o começo
Quem tenta fugir faz sempre o avesso
E quanto mais vidas se cultiva
Mais a morte alimenta a roda viva.

A PELE QUE HABITO

Não é de hoje que pessoas estranhas me julgam como se eu já tivesse vivido muitos ontens. Quando menino, aos olhos dos outros, já era moço. Quando moço já fui homem e, seguindo a lógica, agora, com 34 anos, estou marchando a passos firmes rumo ao índice dos idosos.

Sempre que rola um constrangimento da pessoa descobrir que errou muito a minha idade surge um discurso curioso para justificar a diferença de 15 ou 20 anos a mais que ganhei: “É o jeito que você se veste”, ou “É a sua postura que é muito séria”, ou ainda “A barba envelhece demais a pessoa”. Fato é que o incômodo é maior nos palpiteiros do que em mim. 

Já perdi alguns minutos buscando esse por que, mas, depois de tantos casos, vejo que o melhor é colecionar as histórias e ver até onde minha aparência vai enganar as pessoas.   

Sou mais velho que meu irmão 4 anos, mas, segundo uma recepcionista em Goiânia, eu poderia ser pai dele. Passávamos eu e o Fabrício pela recepção quando ela resolveu sair do WhatsApp para me abordar:

– Seu Romero, boa tarde, eu não sabia que o senhor tinha um filho.

Outro dia, puxando conversa com uma atendente de loja que estava grávida de menina, comentei que lá em casa havia uma linda menina de 2 anos que nos enchia de alegria. Ela sorrindo comentou:

– Aí o vovô fica só babando, né?

Passei um tempo em silêncio tentando entender como ela poderia imaginar que eu morasse com meus pais até, enfim, entender que o vovô, na visão dela, seria eu.

Jogando o tempo fora numa distribuidora de bebidas perto da minha casa, degustava em silêncio minha Heineken enquanto os homens, todos de cabeça branca, falavam de como a vida era melhor no tempo deles e se revoltavam com os absurdos de hoje em dia.

Foi aí que o dono da distribuidora, também de cabeça branca, tentou me incluir na conversa e, me puxando pelo braço, indagou:

– O que você acha disso tudo? Nós devemos ter a mesma idade, eu estou com 55 e você?

Semana passada, um cliente/amigo, que já possui carteirinha de idoso há alguns carnavais, num gesto de pura camaradagem, resolveu compartilhar comigo uma matéria jornalística que narrava todos os benefícios da vida sexual ativa depois dos 60. Agradeci.

Pelo andar da carruagem, não vai demorar para que alguém  sugira que eu entre para o livro dos recordes como homem mais velho do mundo. Aviso aos navegantes que pretendo viver até os 100, mesmo que pareça 200.

Ilustração: Guilherme Roemers

FAÇA VOCÊ MESMO

Foto cozinha

 

Depois que a rotina faz com a gente o mal que a rotina sempre faz, sair da mesma, ainda que numa simples segunda feira ordinária, sempre nos impõe uma gostosa estranheza. Digo gostosa, para aqueles que enxergam uma oportunidade e não um vazio existencial. Pois, foi isso que a última segunda me ofertou.

A estranheza me abraçou quando abri a porta de casa e fui recebido pelo sol forte que atacava metade do sofá, foi assim que descobri o porquê da aparência cada vez mais bicolor desse amigo de sala.

Procurando encontrar minha oportunidade passei a fazer conta, descobri que chegara 2 horas mais cedo do que o costume, tempo suficiente para produzir algo. Tomei a decisão de tentar agradar a família com alguma criação culinária. Parti para o supermercado.

De volta ao lar, restavam-me 1 hora e 20 minutos para preparação na cozinha. Ninguém nunca vai certificar minha habilidade na cozinha, até porque, ela não existe, no entanto, praticar sempre me agradou, não fosse pelo resultado final, era pelo tempo dedicado às facas misturadas sempre com doses de boa música e alguma taça ao alcance das mãos.

Brasília me castiga nesse hobby, morar em apartamento pequeno não é convidativo para arte de cozinhar, talvez, por isso mesmo, fosse essa minha primeira vontade para aproveitar o fim da segunda feira, era saudade. Mãos à obra!

Resolvi que faria um lanche utilizando o forno para assar pedaços de pão italiano que serviam de cama para várias “coisinhas”. Simples, mas suficiente para mostrar para Nadya e Lavínia que gastei o tempo extra pensando em agrada-las.

O primeiro passo foi tirar o lixo da cozinha para trabalhar em ambiente mais limpo. Dois ou três movimentos dentro da cozinha apertada foram suficientes para derrubar um copo de vidro no chão. Um revés desanimador para o início da missão, porém, sem pensamento de renúncia, passei a tirar cuidadosamente os cacos do chão com o pensamento nos pezinhos gordos da Lavínia que adoram pisotear, descalços, toda casa.

Retomada a força, preparei a forma, cortei o pão, piquei e cortei as tais “coisinhas” para cobrir o pão, daí então, lembrei-me de pré aquecer o forno. Algumas vasilhas e alimentos estavam escondidos dentro do forno, coloquei-os por sobre o fogão. Dentre os alimentos estava o saco de pão de forma, estrategicamente guardado fora do alcance das pequenas formigas de apartamento.

Com o forno vazio, era só sintonizar na estação 180º e aguardar uns 5 ou 10 minutinhos. Todavia, este cozinheiro que vos escreve, abriu o gás de uma boca do fogão e não a boca do forno. Quando dei o dedo no acendedor de chamas não levou nem 1 segundo para iniciar um pequeno incêndio na embalagem do pão.

Entre o espanto do “não acredito!” e o racional do “faça alguma coisa” a embalagem do pão se derreteu, grudou na grade da chama, contaminou boa parte dos pães e, por fim, minou as forças do cozinheiro que passou para segunda sessão de limpeza.

Quando família chegou eu disfarcei como podia e perguntei:

– Ifood ou Uber eats?

TIC TAC

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O tempo, ou pelo menos a noção dele, sempre fez parte do cotidiano da humanidade. Uma relação íntima, leal. Relação que exigiu aperfeiçoamento, observação, classificação, desdobramentos. Dia e noite. Manhã, tarde, noite. Horas, minutos, segundos. Bebês, jovens, adultos, idosos. Tudo se encaixando nas entranhas do tempo onde homem fez morada, mas nunca foi dono.

Somos todos hóspedes, porém, nas coisas do tempo, ninguém pode mexer. Os melhores dias findam-se na mesma velocidade dos piores, muito embora, nossas emoções gostem de nos dizer o contrário.

Segundas-feiras chatas, com chuva e rotina desbotada, são exatamente iguais aos domingos de sol no parque assistindo o melhor da liberdade entre amigos e família.

Ontem cheguei em casa depois de dois dias fora e procurei pela Lavínia que eu queria ver. Um bebê de formas arredondadas, de sorriso gracioso, que tudo fazia brilhar sem nenhum dente. Pernas grossas que não sustentavam seu próprio peso e que pouco serviam para caminhar, mas eram especialistas em chutar os pais nas noites mal dormidas. Essa Lavínia não estava lá.

No lugar dela tinha uma mini moça tirando o cabelo do rosto, que me puxou pela mão para mostrar sua mesa de atividades cheia de sinais do seu trabalho árduo de rabiscar e bagunçar. Pediu-me um beijo articulando as frases com seu modo, driblando as curvas entre “P” e “T”, conjugando verbos em idioma próprio tão estranho aos outros, mas perfeitos para os pais.

Depois de dois anos e três meses parece-me que fui acometido por um sentimento que dizia que uma fase acabou e outra, tão bela e desafiadora quanto, começou. Entrego as palavras a este texto como forma de recibo de ciência, de arquivo que pretendo guardar com carinho para nunca me esquecer de como fui feliz sendo pai.

Nossa arrogância humana conseguiu colocar o tempo dentro do relógio, mas, ainda assim, ele não parou, no máximo, podemos apelar para memória. Sou grato por isso, grato por cada dia, cada fase. Grato por estar aqui.

 

 

LATA VELHA

Na minha infância todos os carros que tivemos eram velhos. Ainda assim, sempre gozamos do privilégio de andar de carro, muito embora, eu fosse levar tempo para entender tal privilégio.

Parte da minha ignorância advinha do fato de escapar da real necessidade de viver sem o carro; a outra parte vinha da constatação de que nossos carros eram tão velhos e acabados que não tinham lá muita cara de privilégio.

Ter o carro, pagar seus impostos e trocar o óleo era o máximo que se dava conta lá em casa, portanto, maçanetas partidas, bancos rasgados,para-choque caindo, marcas de pilastras que moravam em pontos cegos, freio de mão calejado que só trabalhava no plano… Tudo dava um ar personalíssimo aos nossos carros e os reparos iamficando para o amanhã, sempre o amanhã: “Depois a gente ajeita isso”, afirmava meu pai com sua crença inabalável nos próximos 15 dias.

Ele, como sempre, tinha razão, fomos melhorando e com o tempo os carros também foram, mas guardo dos nossos carros mais velhos um carinhoso trauma. Eles me marcaram e me ensinaram muito. Lembro-me de algumas vergonhas como se as tivesse vivido ontem. 

Tínhamos um fusca branco, com o para-lama direito que eu mesmo amassei tentando passar entre duas árvores na minha primeira experiência como motorista em um pasto na fazenda do meu tio Mário Arruda, aos 12 anos.

Nosso fusca era uma coleção de problemas, tínhamos sempre no porta luvas um platinado, uma pedra para colocar no acelerador e um pano velho para passar no para-brisa que embaçava em 10 segundos de chuva.

Os bancos espetavam os passageiros com arames que saltavam entre as molas, o assoalho era tão fino que já tinha visão para o asfalto – meu pai alertava os passageiros: “Não pisa forte não que o teu pé pode varar lá embaixo” – o vidro do passageiro só podia descer até metade, quem descumprisse o aviso teria que posteriormente descer do carro e usar uma mão na manivela e a outra para ajudar a voltar o vidro para lugar. A partida era quase um segredo de cofre, a chave tinha de ir suavemente até o primeiro estágio, retornar mais suave ainda e depois avançar com raiva para acionar o motor. Abrir a porta por dentro era quase dançar um tango sofrido, havia de seabraçar lateralmente a porta, puxar para dentro, suspender e depois empurrar para fora no auge da dança.

Certa vez, na saída da escola, o fusca resolveu inovar na escala dos defeitos. Cada vez que meu pai acionava o freio o fusca buzinava a plenos pulmões pela Avenida Mutirão. Considerando que a avenida tem um semáforo em cada quadra e que possui inclinação não é difícil imaginar como foi nossa volta pra casa.

Não sei até hoje como não levamos um tiro, cada esquina era um rolo, foi muito lucro ter de carregar somente os xingamentos pelas próximas quatro gerações.

Meu pai freava, o fusca buzinava. O motorista da frente começava a fazer gestos mostrando o sinal fechado, meu pai soltava o freio, o barulho acabava, mas o carro voltava, daí era o motorista de trás que começava a buzinar e fazer gestos, aí meu pai freava e a buzina cantava outra vez. 

De vez em quando meu pai tentava colocar o braço para fora e fazer também alguns gestos para contar, por mímica, que a culpa não era dele, mas sim, do temperamento particular do fusca. A ideia piorou muito as coisas porque meu pai não tinha fama com mímica e os outros motoristas entendiam tudo como provocação do velho baixinho no seu velho fusquinha. 

Sou muito grato pelo esforço que meus pais fizeram para nos manter com o conforto de ter sempre um carro em casa e, acima de tudo, sou um eterno defensor da paz no trânsito.