H 1 N Não

VALIDADE-DA-VACINA-H1N1

Se minha decisão fosse baseada no tamanho da fila, eu teria ido embora. A cauda da fila estava na calçada, era sinal de tarde perdida, mas, também, deixar para tomar a vacina no último dia só podia dar nisso. Correndo o risco de jogar minha tarde fora, entrei na fila.

Era o mais sensato a se fazer, principalmente, depois de notícias contarem a morte de pessoas não vacinadas. Dizem que quem não tem muita sorte, por falta de sorte, ainda costuma ter azar. Pelo sim, pelo não, tomei meu lugar na calçada para prevenir a tal da gripe que mata.

Eu sempre tive convicção de que minha morte não deve ocorrer por temas banais, uma fé inabalável de que não me perdoaria se morresse por conta de uma falha de equipamento de paraquedas, choque elétrico no poste do parque sem manutenção ou, pior ainda, preguiça de pegar a fila da vacina. Não, não dá. Preciso crer que meu destino tenha um pouco mais de glória.

Para meu encanto, a fila que se mostrara tão desafiadora caminhava a passos largos e, pouco tempo depois, já se percebia que ninguém perderia mais do que 15 minutos para alcançar a vacina.

Duas posições à minha frente ia um homem de semblante sério, sobrepeso bem acomodado, trajava, como a maioria da fila, roupa social. Seu nome era Aguinaldo. Informação que peguei quando a moça da recepção leu seu documento. Não havia em Aguinaldo nada que merecesse especial atenção, não fosse sua ousadia na hora de receber a dose da vacina.

O processo era bem rápido, quem se aproximava da enfermeira já devia despir o braço, previamente escolhido na triagem. O diálogo se resumia a um mero “boa tarde” enquanto a agulha já despejava a vacina pelo músculo, dois segundos mais e pronto, o sujeito já era alijado do processo e saía pelos cantos se recompondo.

Quando chegou sua vez, Aguinaldo tentou mais do que o “boa tarde”. Abaixando a cabeça para mais perto do ouvido da enfermeira, lançou a seguinte frase:

“Hein, deixa eu te falar, quando a gente toma essa vacina pode tomar uma cervejinha? Sabe como é, hoje é sexta feira e tal…”.

Foi aí que o Aguinaldo tomou protagonismo digno de virar história. Percebi que além de mim, outros dois ou três, apesar de toda descrição do Aguinaldo, mexeram a inclinação do corpo para ouvir atentamente a resposta da enfermeira. Sinal de que a dúvida era pertinente e o nosso amigo fizera bem em perguntar.

Ocorre que a enfermeira não estava aberta ao diálogo e, muito menos disposta a sanar a dúvida do Aguinaldo. Respondeu de pronto com rigidez desproporcional:

“Meu senhor, eu sou uma profissional de saúde e o senhor não deve esperar de um profissional de saúde nenhum aconselhamento para uso de drogas. Meu papel aqui é lhe ofertar a dose da vacina que lhe previne de uma gripe grave e, depois disso, cabe ao senhor, não a mim, a decisão de ingerir bebida alcoólica no mesmo dia que lhe ofereço remédio”.

A resposta pegou Aguinaldo desarmado e, antes que buscasse qualquer reação, a enfermeira já havia chamado o próximo. Coube a Aguinaldo balançar a cabeça para os lados. Tentou encontrar algum olhar de solidariedade na fila, mas, os tais interessados em sua pergunta, onde me incluí, já haviam recolhido suas inclinações e se dividiam em fiscalizar a pintura do teto ou o rejunte do piso.

Mais tarde, horas depois do ocorrido, minha covardia me cobrou um preço caro, fiquei rememorando a cena e lamentado o insucesso do Aguinaldo. Era difícil imaginar que alguém poderia intervir para dobrar a enfermeira, mas, no mínimo deveria ter lançado um olhar, uma expressão facial contorcida ou qualquer coisa que contasse ao Aguinaldo que a pergunta dele era boa e muita justa, inclusive.

Sabedor de que não poderia dormir sem resolver meu dilema interno de omissão, antes do sono me convidar para noite do remorso, abri cuidadosamente uma garrafa de vinho, servi a taça com sede e ofereci, silenciosamente, um brinde ao companheiro Aguinaldo. Espero que ele tenha tomado sua cerveja em paz. Tamo junto.

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AQUILO QUE SE SENTE

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Os oito ou nove que aguardavam a vez na sala de espera da clínica, incluindo este narrador, tinham em comum um celular na mão e uma história para contar ao médico. Apesar da tv ligada, do revisteiro cheio, do barulho do corredor, da importunação da obra ao lado… todos estavam ao celular.

Todos, menos Dona Etelvina, que levará o registro de que viu a era do smartphone chegar, porém, seus cabelos brancos não tinham mais disposição para aprender novo ofício.

Dona Etelvina chegara com semblante de sofrimento, talvez fosse a razão da consulta, talvez fosse a caminhada com obstáculos até a sala de espera. Aparentava mais de 80, mas, daí dizer que já tinha 90 poderia ser um exagero. Estava acompanhada de uma filha que, apesar de madura, conseguiu embarcar na era do smartphone.

Depois de acomodada foi que Etelvina se viu sem lugar. Viu um bando de gente que não se via, incluindo a filha, todavia, nada viu em suas mãos além das marcas do tempo.

A mão que não portava celular, por certo, já cumprira tarefas nobres. Teria tratado muitos descendentes, aberto destinos? Teria, quem sabe, levantado uma tonelada de giz para fazer milhares sentirem o peso da liberdade das letras? Poderia também ter anotado incontáveis livros no cartório para contar a história de tantos nascimentos, ou óbitos, ou casamentos? Talvez tivesse simplesmente separado com cuidado a lenha para alimentar o fogão que depois alimentaria a família com quitutes de fazenda daqueles com sabor de passado.

Teorias jorravam na cabeça desse narrador que seguia preso ao telefone, porém, com inveja por saber tão pouco perto daquelas mãos cuja experiência, seja qual fosse, dera tanto saber.

O aparelho celular vendia aos presentes a ilusão de estarem livres daquela sala, como se saíssem pela janela e dessem adeus a mesmice das salas de espera. Estavam presos fingindo voar. Foi então que D. Etelvina, única refém da espera, emitiu um suspiro, um suspiro que não se podia reconhecer a emoção. Reparei que D. Etelvina mudara de posição enquanto eu me perdia no mundo digital, estava mais emborcada, fizera um apoio com a mão para escorar seu rosto e parecia olhar para o chão.

Sua filha, ao escutar o suspiro e notar a posição da mãe, rompeu o silêncio da espera com uma indagação em tom preocupado:

 

– Mamãe, você está sentindo alguma coisa?!

 

O tom da pergunta trouxe uns três viajantes de volta para a sala.

Etelvina, sem trocar de posição, respondeu sem muita força:

 

⁃Tô.

 

A resposta fez arregalarem os olhos de sua filha que, desgrudando as costas da cadeira e pousando sua mão, já livre do celular, sobre o joelho de D. Etelvina, perguntou em tom severamente mais preocupado:

 

⁃ O que você está sentindo, mamãe? Diga! O que foi que você tem?

 

Praticamente todos os smartphones trouxeram seus donos de volta e agora estávamos todos aguardando a resposta da senhora que não tinha celular, mas sentia alguma coisa. Até a recepcionista, que estava escondida atrás do balcão, fez-se ereta para saber como proceder depois da resposta.

Dona Etelvina, como quem zomba do tempo, não teve pressa para aliviar a aflição da filha, nem a curiosidade dos espectadores. Mexeu-se lentamente e, olhando para cara de espanto da filha, respondeu em tom macio:

 

– Sono…

A Lista

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Levantaram cedo e se entreolharam em silêncio por alguns instantes. Logo após, suspiraram e deram início à arrumação, papai foi tomar café, mamãe foi tomar banho, em seguida, inverteram os papéis e depois finalmente me arrumaram.

            Tomei banho, passei cremes, vesti roupas novas e até me perfumei. Não era um dia comum, eu já desconfiara. Dia comum a gente veste qualquer roupa, ou melhor, no calor do verão nem roupa veste. Estava na cara que iríamos pra rua.

            Opções não faltavam, mas ao me lembrar dos olhares e do suspiro matinal, passei a pensar em coisa ruim e fiz uma lista de pedidos:

            – Que não seja vacina;

            – Se for vacina, que seja em gotas;

            – Se for injeção, que seja só uma;

            – Se for mais de uma, que seja uma em cada perna;

            – Se forem mais de duas, que eu tenha o papai e mamãe ao meu lado me dando força e me enchendo de carinho para que eu supere esse momento.

            Eu estava certa, fomos pra rua, era vacina e de toda minha lista somente o último pedido foi contemplado!

           

 

CHARLLOTE DESCONSTRUÍDA

Charllote texto

Quando obtive uma resposta imprecisa do cliente Antônio Afonso, ao perguntar qual o melhor horário para nosso encontro, já fiquei um pouco desconfiado acerca da construção desta agenda.

– Vamos fazer o seguinte: a gente se encontra entre 12:00 e 13:00, lá no Rio Design Barra. Pode ser? – Me indagou Antônio.
– Ok, tudo bem, pode ser sim. Até lá.

A imprecisão de uma hora pune um lado e beneficia outro. Eu não tive escolha, cheguei às 12:00, meu cliente, beneficiado, poderia chegar uma hora depois e, ainda assim, ser pontual.
Depois de 20 minutos aguardando, resolvi ligar na esperança de encurtar minha espera. Celular desligado. Não vamos nos preocupar ainda, afinal, ele é médico, deve estar realizando algum procedimento, celular desligado é o correto.
Quando o ponteiro mostrou 15 minutos faltando para às 13 horas, resolvi arriscar mais uma vez. Nada. Caixa de mensagem. Sigo na espera, não há atraso, ainda.
O atraso só incomodou mesmo quando o relógio apontou 13:30. Antônio não apareceu, não atendeu, não escreveu e nem ligou o celular.
Façamos as contas, uma hora de táxi, mais uma hora e meia de espera e, talvez, mais uma hora para voltar até Botafogo.
Todo negócio tem seu risco, mas, no caso em análise, não tive nem a chance de correr meu risco. Vida que segue.
A frustração profissional era agravada pela frustração do estômago que me cobrava o almoço. Com a agenda livre e uma praça de alimentação no piso superior, parti em busca de uma refeição.
Um almoço executivo, com prato principal e uma tal sobremesa do dia, me chamou a atenção. Na hora de fazer o pedido, perguntei para a garçonete qual era a sobremesa do dia. Com naturalidade de quem responde “é um pudim de leite, senhor”, ela me respondeu “Hoje é dia de Charllote desconstruída, senhor”.
Convenhamos, com um nome desses deve ser uma maravilha, mas eu não fazia a menor ideia do que se tratava a tal Charllote, muito menos poderia imaginar seu processo de desconstrução. Não tive escolha, perguntei que diabos era o tal do doce.

– Ah, o senhor não conhece? É o nosso famoso pavê com doce de leite argentino derretido.

Pronto! Estávamos certos, não havia como uma sobremesa carregar um nome desses e ser uma coisa ruim. Coisas ruins possuem nome ruins, tipo, jiló. Mas Charllote desconstruída é outro nível.
O prato principal estava bastante honesto, um bom grelhado com tamanho suficiente, mas a verdade é que eu perdi todo o sabor do prato principal, completamente tomado pela expectativa do doce com nome de Charllote.
Comi o prato principal somente por obrigação, cumprindo tabela e com pressa de chegar ao fim e, enfim poder realizar meu encontro com a sobremesa desconstruída.
Já estava com a mão erguida para chamar a garçonete quando senti uma vibração na mesa. Era meu celular, mais do que isso, era Antônio Afonso, que não chegara às 12, nem às 13, mas, sim, às 14.

– Romero, boa tarde, me perdoe o atraso, estou aqui no café do primeiro piso, podemos conversar agora?

Pois é, a vida é mesmo real e de viés. O bolo que eu tinha ganhado do cliente me fazia mal, razão pela qual eu escolhi comer um bolo, no caso um doce, para me fazer bem. Sentimentos diversos no cotidiano das confusões urbanas. Pedi a conta.

– O senhor não vai querer conhecer a Charllote desconstruída?
– Não, obrigado, diga a ela que voltarei, um dia, quem sabe.