COMENTARISTA DE MERDA

O brasileiro é, por natureza, um especialista. Ele é especialista em tudo sem nunca ter lido um parágrafo sobre nada. Quando eu tinha bom humor, eu admirava a capacidade do brasileiro dar pitaco em assuntos que ele não dominava, pensava até ser uma questão de inteligência.

O amadurecimento e amargor da experiência me fizeram mudar completamente a visão. Hoje, penso ser uma questão de desrespeito, ignorância e soberba. Um bom acordo seria deixar o brasileiro dando aula somente sobre futebol. Falar de corrida espacial, déficit público e genoma humano me parecem um pouco exagerado. De preferência, deveríamos estabelecer a regra de que é proibido receber qualquer remuneração para comentar futebol. É uma questão de justiça.

Eu me esforço muito para não ouvir nem um comentarista de futebol. Não vejo razão para ouvir quem sabe menos ou o mesmo tanto que eu e recebe por isso, mas, em ano de copa do mundo, a gente acaba sendo traído por uma ou outra fala.

Recordo-me do dia em que vi um comentarista desmerecer a condição do Marcelo ser capitão da seleção brasileira pelo fato dele ser muito “espiroqueta”. Prontamente, o colega de bancada questionou afirmando que o comentário era exagerado, desproporcional e que poderia levar a má interpretação por parte dos telespectadores.

Depois de 5 minutos conversando, os dois comentaristas chegaram num acordo de que na verdade o Marcelo era “espirocado” e não “espiroqueta” e que, mesmo com o perfil melhor definido, não deveria ganhar a faixa de capitão.

A riqueza desse debate me trouxe uma analogia que penso ser merecedora desse texto. Percebi que desde que minha filha nasceu, eu e minha esposa somos verdadeiros comentaristas de merda e que nossos comentários sobre o cocô da nossa filha são tão vazios quanto os dos analistas de futebol:

– Como estava o cocô hoje cedo?

– Estava bom, mas poderia ter sido melhor.

Ou

– Você acha que ela poderia ter feito mais cocô hoje?

– Sem dúvida, ela tem potencial para fazer mais. Resta saber qual a razão para o baixo desempenho de hoje.

Aguardo convite das emissoras que se interessem pelo assunto.

SORTE ACUMULADA

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Tentaram me convencer de que se autodenominar azarado dá um azar desgraçado, pelo sim, pelo não, aceitei a ideia e passei a evitar referências ao azar, no máximo, quando era inevitável, adotei expressões mais leves: “Foi uma tremenda falta de sorte”, “eu não estava no meu dia de sorte” ou “terei mais sorte na próxima vez”.

O problema é que a PCA (Patrulha do Comportamento Alheio) não se viu satisfeita e me mandou alertas de que não era producente ficar dizendo que faltava sorte. Tive um pouco mais de trabalho, mas, para aquietar a patrulha, resolvi criar a expressão “sorte acumulada”, foi um sucesso!

Eu nunca ganhei nem par ou ímpar, nenhum sorteio, nenhuma rifa, nenhum bingo… Certa vez um grande amigo que mora na Europa trouxe na sua viagem de férias algumas notas da recém criada moeda EURO, era uma novidade e tanto. Quando o churrasco já estava mais vazio e juntou os amigos mais próximos e disse que queria nos presentar a todos com notas de EURO.

Quando sacou as notas da carteira ele se deu conta de que estávamos em 6 amigos e só haviam 5 notas. O método escolhido para resolver o drama foi o sorteio. Adivinhem quem foi que ficou sem nota?

Todas as vezes que me abordaram para dizer que tive muita sorte a abordagem se dava após algum evento muito ruim em que o portador da mensagem queria dizer que tive sorte de não ter sido pior: “Ainda bem que só roubaram seu tênis, já pensou se resolvem atirar em você? Você teve muita sorte”.

Afirmar que minha sorte estava sempre acumulando me fez crer que não posso gasta-la em situações comuns, no dia a dia, minha sorte está se guardando para a Mega Sena da virada, sendo assim, não dá para sofrer pelo brinde do bingo da firma no final do ano.

Semana passada um fato inusitado mexeu com minha teoria da sorte. Fomos a um evento ao livre, uma reunião de foodtrucks com cervejas artesanais e um bom show de rock. A agência de publicidade organizadora resolveu sortear algumas camisetas do evento e, para meu susto, fui o primeiro sorteado.

De lá pra cá ando muito preocupado em ter gastado toda minha sorte naquela camiseta em troca da mega sena. Minhas poucas esperanças restam do fato de que quando cheguei em casa e fui experimentar a camiseta ela estava com um belo rasgado debaixo do braço. Foi a sorte que me restou, espero que dê pelo menos a Lotofácil da independência.

CÃO QUE LATE…

Envelope

Comunicação é tema indispensável em qualquer curso de formação, atualização ou especialização. Comunicar bem é imprescindível para o sucesso.

Existem situações em que a comunicação carece de intermediário, fator que aumenta o desafio. Nesses casos, o cuidado é redobrado e faz-se necessária a confirmação da capacidade do intermediário de entregar sua mensagem.

O Jonas, vulgo Cachorrão, achou por bem nomear um envelope do Banco do Brasil para transportar sua mensagem para Flávia. Os envelopes de depósito costumam lograr êxito na tarefa de fazer o dinheiro cair na conta, isso o banco garante, mas são péssimos condutores de mensagens amorosas, razão pela qual me disponho a compartilhar com vocês o bilhete do Cachorrão na esperança de que o carinho e o afeto possam chegar ao coração da Flávia. E que esta tenha tempo para comprar a calcinha especial.

Felicidades ao casal.

ATCHIN!!!

Todas as mesas da biblioteca estão cheias. Não há outra alternativa a não ser compartilhar mesa com alguém. A mesa é confortável para duas pessoas, desde que as duas disponham de algum bom senso. Há aqueles que trazem computador, tablet, dois celulares, agenda, livro, garrafinha personalizada e barrinha de cereal para comer no meio da manhã. Esses não cabem nem sozinhos.Uma olhada rápida e sem muito critério, busco alguém que ocupe menos espaço (sinal claro do espírito de compartilhamento). Encontro um sistemático, parece que ele tirou medida da mesa e fez questão de não ocupar nenhum centímetro além da metade. Pronto! Achei meu lugar.

Fiz meu “bom dia” já com a expressão facial apontando para metade livre da mesa e fui bem recebido: “Opa, bom dia, fique à vontade”. 

Devidamente instalado e com minha parafernalha montada passo a produzir meu dia. Um e-mail aqui, uma matéria de jornal ali, um cliente para responder, outro para perguntar… Tudo correndo bem exceto pelo fato de que o colega de mesa passou a emitir todos sinais de que estava atravessando uma baita gripe e, justo hoje, parecia ser o ápice do processo.

Tosse, coriza, olho vermelho, etc… Eu só lembrava da vitamina C que comprei de promoção e que leva 5 minutos para dissolver de tão sem vergonha que é. Teste melhor não pode haver. 

Não faz muito tempo que o colega foi embora e já me sinto todo lascado, ainda não sei se é patologia ou psicologia, mas o fato é que em tempos de H1N1 eu preciso escolher melhor a mesa.

SOBE E DESCE

O elevador é uma ótima experiência social, penso que seja a melhor régua para medir o egoísmo das pessoas. Quando o sujeito está do lado de fora esperando fica apertando o botão de chamar umas 10 vezes, balança a perna, bate o pé no chão e, geralmente, resmunga: “Essa porra de elevador não chega logo”. 

Depois que o sujeito entra muda tudo, quer que o elevador permaneça fechado e só pare no destino que lhe interessa. Se o elevador para em outro andar, pronto: “Puta que pariu, pra que parar aqui? Vai parar em todos agora? Vamos embora, minha gente!”.

Todo dia a cena se repete, dá pra entender? E olha que não estou me referindo só aos leoninos.

Boa tarde!

O LADO BOM DAS COISAS

Satisfação

            Outro dia, fui chamado atenção sobre meu olhar para as coisas do dia a dia. Segundo esse conselheiro, eu usava uma régua muito criteriosa para medir as coisas negativas e não dava o mesmo privilégio para as coisas boas de cada situação cotidiana.

            Criticando minha autocrítica, vi que não custava tentar fomentar a positividade e passei a buscar justiça entre elogios e reclamações. Logo no primeiro embate cotidiano, um cara me chamou de “belo”. Na verdade, ele tentou furar a fila na frente de uma senhora que aguardava o pão recém tirado do forno na padaria aqui perto de casa e eu o denunciei. Não muito satisfeito ele disse que eu era um “belo de um filho da puta”, mas eu já estava focado em dar mais valor nas coisas boas.

            Na mesma semana, sem carro, precisei me deslocar de Goiânia para Brasília. Com preguiça de encarar a rodoviária e a lentidão do ônibus, resolvi apostar em um aplicativo de carona. O caroneiro se apresentava como experiente, seguidor das regras de trânsito e rígido com horário marcado. Não vi como podia ser melhor. Marcamos às 16 horas em um posto de gasolina.

            Ele chegou às 17:20 com a cara mais tranquila que baiano em véspera de carnaval e disse: “preciso só calibrar os pneus e abastecer o carro, daí a gente já sai, já”. Pegamos a estrada junto com o por do sol, segundo ele, o melhor horário para viajar. Dirigia com o banco bem deitado, contemplando cada árvore do caminho, enquanto os pneus bem calibrados rasgavam a estrada a 70 quilômetros por hora. Todos os ônibus nos passavam.

            No auge da minha caça para enxergar o lado bom dessa vagarosa experiência, meu amigo naturalista me perguntou se eu ficaria chateado se ele acendesse um cigarro de maconha para aproveitar aquela viagem. Cheguei em casa às 22 horas, fedendo maconha e com dificuldades de encontrar equilíbrio emocional.

            Esta semana, chamei um Uber para me deslocar. Ao entrar no carro, notei o sinal de aviso de combustível na reserva. Segurei a crítica e fiquei quieto e concentrado para meu compromisso. Poucos quilômetros depois, fui surpreendido com o motorista espancando o acelerador do carro e exclamando: “Eu não acredito que esse carro vai fazer isso comigo!!!”. Eu tive serenidade para explicar que pisar com força no acelerador não enche o tanque, mas ele todo sem jeito tentou argumentar que não era falta de gasolina, mas sim um defeito mecânico.

            Não sabia ele que eu havia notado não só a luz da reserva, mas também se ele dirigia com as duas mãos, se tirava o pé da embreagem, se freava na curva, se usava os três espelhos e outros tantos detalhes que não passam despercebidos por um crítico virginiano.

            Ando ansioso para encontrar esse amigo conselheiro. Ele tinha razão quando disse que minha vida ia mudar. Em duas semanas já ganhei uma crônica.

A NOITE PELO DIA

Depois de uma noite praticamente insone amanheci com duas certezas: 1. não dava para ficar na cama tentando recuperar o sono perdido. 2. Passaria o dia com sono.

Logo após deixar minha filha na escola segui para barbearia pra dar um tapa no visual. Lá chegando fui acolhido por ambiente calmo, silencioso sem nenhum cliente e poucos funcionários.

Já acomodado na cadeira percebi que um dos funcionários resolvera quebrar o silêncio com um pequeno rádio e seu pendrive com uma seleção especial de forró e baião.

Sanfona, zabumba e triângulo trabalhavam bem ritmados em volume respeitoso dando ao ambiente um ar ainda mais propício ao descanso.

Quando a cadeira foi deitada e meus olhos cobertos com uma toalha o desafio de ficar acordado passou para um nível que não valia a pena mais lutar.

Acordei um tempo depois com meu próprio ronco em desobediência ao Rei Gonzagão que pelo rádio fazia seu alerta:

🎼”É proibido cochilar, cochilar, cochilar…”🎼