AYLAN

AYLAN

Tem uma criança na praia.

Não está brincando,

não está correndo,

está estranhamente parada.

Não vejo areia voando,

não vejo onda chutada.

Vejo a felicidade ausente

e a esperança muda, calada.
Tem uma criança na praia,

mas não tem bola,

não tem castelinho,

não tem pai,

não tem mãe,

o absurdo grita sozinho.
Hoje não tem alegria na frente do mar.

Desculpa, Aylan,

o senhor da guerra não sabe brincar de enterrar.

SALADINHA DE FRUTAS, COMPLETA!

FullSizeRender

Hoje à tarde, fui surpreendido por uma fome repentina e insistente. Não querendo atrapalhar uma boa dieta que me acompanha desde o início do ano, me senti um verdadeiro afortunado quando me deparei com um simpático carrinho conduzido por uma moça animada que enfrentando uma tarde bastante quente, tamanha três da tarde, bradava: “Olha a saladinha de frutas. Quem vai querer? Saladinha de frutas, é leve, é saudável é fresquinha. Quem vai querer”?

Não tive dúvidas. Ahá! É pra mim, pensei logo. Sem muito pestanejar, abordei a moça e pedi meu lanche, leve, saudável e fresquinho.

– Boa tarde, quero uma saladinha, leve, saudável e fresquinha.

– É pra já meu senhor. Me diga uma coisa, o senhor vai querer completa?

Essa é aquela pergunta que nenhum ser humano no mundo tem condição de responder sem fazer outra pergunta e, com essa vida corrida, no meio da tarde, foi melhor arriscar um palpite.

– Sim, quero completa, caprichada.

– E o senhor quer de 300 ou de 500 ml?

– Se fosse um Ovomaltine eu ia querer 300, mas sendo saladinha de frutas, leve, saudável e fresquinha, pode ser a de 500.

Com um copo de 500 ml na mão, essa moça começou a tacar leite condensado. Quer saber a quantidade? Pense num copo lambuzado. Isso! Agora adicione aquele tanto que simboliza o “caprichado”. Pronto.

Antes de você questionar a qualidade do termo “saudável” da minha saladinha, deixa eu te contar que a moça mal largou a caixa do leite condensado e já virou com vontade uma espécie de bisnaga carregada de leite ninho. Usou a mesma generosidade do leite condensado.

Antes de você esquecer de vez o tal do “saudável”, preciso te confessar que existia uma segunda bisnaga. Desta vez, o ingrediente especial era farinha láctea, indispensável em qualquer saladinha leve. E a moça era generosa, viu? Penso que ela levou prejuízo ao me servir.

Feita a base, a vendedora partiu para uma colher de sopa de frutas variadas. Tentou uma segunda, mas sem muito sucesso, uma vez que se a colocasse inteira poderia derramar. Finalizou a saladinha com uma cobertura de granola (com açúcar).

Hoje, aprendi que realmente é possível comer comida leve e gostosa. Recomendo.

50 TONS DE GENIALIDADE

IMG_0021

Em tempo de carnaval, folia e descontração, o cinema sempre representa uma fuga para os que buscam a contramão do carnaval, bem como, para os que precisam retomar o fôlego antes de voltar para o salão dos sambas e das marchinhas.
Tenho clareza de que me encaixo na segunda opção. Sou admirador do carnaval à moda antiga, do espírito bem humorado com ampla participação popular, mas o tema aqui é o cinema, portanto, vamos ao ponto.
Não quero gastar o meu tempo, nem o seu, para glorificar ou demonizar a obra 50 Tons de Cinza, inspirada no livro de mesmo nome e que tem causado alvoroço nas telas de cinema do mundo todo. Não posso e nem vou julgar os que ajudam a engrossar os números acumulados pelo filme. Talvez até a gente se encontre por lá, embora eu não tenha mais a capacidade de suportar uma sala de cinema cheia. Mas o fato é que se você deseja aproveitar seu tempo com o cinema e precisa satisfazer suas curiosidades com a trama cinzenta, saiba que seu tempo pode ser investido também para conhecer um pouco mais da biografia de Stephen Hawking no filme chamado A TEORIA DE TUDO. Tempo, aliás, é a base dos estudos desse gênio.
Stephen Hawking é um físico teórico e cosmólogo britânico e um dos cientistas mais consagrados da atualidade. Seus feitos notáveis aliados a uma história de vida enraizada na superação dão ao filme um contorno especial. Esse contorno costuma preencher aquela sensação do quanto viver vale a pena, do quanto cada um de nós pode fazer mais e melhor.
O filósofo alemão do século XIX, Arthur Schopenhauer, afirmou que “Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.” O professor Hawking é assim, segue acertando alvos que ninguém vê e, ao longo de sua carreira, já contestou teses avançadas que ele mesmo desenvolveu. Tudo isso, apesar de portar uma doença degenerativa que o impede de tantas coisas, inclusive de chicotear alguém.

JÁ VI QUE LÁ É COMO CÁ

IMG_0188

Analisando o comportamento de algumas pessoas nas redes sociais, me pareceu inevitável a comparação com o destino final de todos nós, o cemitério.
Calma! Não quero invocar a morte para este texto, muito menos desejá-la para qualquer “amigo virtual”. Mas o fato é que as convicções expressadas nas redes sociais se demonstram bem mais alinhadas com os preceitos de uma sociedade melhor do que as atitudes expressadas fora do ambiente virtual.
Me impressiona o quanto essas pessoas são honestas e ilibadas no facebook. Me encanta o quanto elas clamam por justiça. Me estimula o quanto são trabalhadoras e o tanto que se envolvem na construção de um país melhor.
Nos velórios que a vida me fez enfrentar até aqui, eu tive a mesma sensação. Aquele que parte para uma melhor sempre recebe muitos elogios e tem seus melhores feitos relembrados, como se a morte fosse momento para ressaltar as virtudes e perdoar os erros, uma vez que não pode haver castigo maior do que perder a vida.
É uma pena que uma biografia não possa ser definida somente pelo discurso do velório, bem como, um país não pode ser construído com os textos do facebook. Até porque, geralmente, o que mais impressiona no discurso dos justiceiros das redes sociais é o número de erros de português, seguido pelo grande desconhecimento de causa.
Fica aqui um convite para sermos melhores a cada dia, melhores diante do computador, do próximo e, principalmente, diante de nós mesmos.
A distância entre o virtual e o real é tão imensa que produz contradições profundas como, por exemplo, um monte de usuários de drogas aplaudir e comemorar a execução de um traficante brasileiro na Indonésia. Sem mais.

*foto retirada da internet sem restrição

CADA UM COM SEUS PROBLEMAS

2015/01/img_0697.jpg

Gestão pública é um tema desafiador em qualquer lugar do planeta. Organizar a vida da sociedade em espaços urbanos gerindo recursos, geralmente escassos, e respondendo à expectativas, geralmente abundantes, não é tarefa fácil.
A abordagem realizada a seguir é prova concreta do tamanho deste desafio, mesmo quando se trata de um local desenvolvido considerado um altíssimo índice de qualidade de vida.
Na Suécia, em média 4% do lixo produzido vai para os aterros sanitários, os outros 96% são cuidadosamente separados pelas famílias e recolhidos para destinação de reciclagem e geração de energia.
O sistema funciona de forma tão perfeita que acabou gerando um problema inusitado. A capacidade instalada no país para geração de energia está acima da quantidade de lixo que as pessoas geram, ou seja, está faltando lixo! E o problema não é um problema qualquer. A ociosidade do sistema gera prejuízo aos cofres públicos e sem falar que a energia advinda do lixo é de fato utilizada para consumo comum das casas, portanto, é preciso garantir a produção, que depende de mais lixo.
O caminho mais viável para resolver este desafio de gestão pública foi importar lixo. Isso mesmo! A Suécia compra da sua vizinha Noruega cerca de 800 toneladas de lixo todo mês para manter a capacidade geradora de energia em níveis aceitáveis.
Fazendo uma reflexão comparativa com a realidade brasileira, com o auxílio luxuoso de um cafezinho, é bem provável a conclusão de que existem uns problemas melhores do que outros.

ATIREI ERRADO

/home/wpcom/public_html/wp-content/blogs.dir/6e7/47731274/files/2014/12/img_0005.jpg

Tarefa fácil nessa vida é perceber se você está ou não em sintonia com os jovens. Eu acreditava que para perdê-la eu levaria um tempo maior, talvez na casa dos 40, mas o fato é que caminho a passos largos para não entender a população pouco mais nova que eu.
O final de semana me reservou o privilégio de ser infiltrado numa festa jovem. Sou um sujeito de fácil adaptação, por isso, tratei de colocar o sorriso no rosto e aproveitar o momento. Acho que eu estava indo bem até aparecer um monte de plaquinhas, dessas com mensagens divertidas para registro fotográfico.
Fiquei ali no canto, tomando minha cerveja e observando as tais placas. Eram variadas, “chama o samu”, “eu não vou lembrar dessa foto”, mas teve uma que me chamou mais atenção, ela dizia simplesmente “tá tá tá tá tá tá tá tá”.
Sintonizado como estava, ou melhor, inserido naquela “vibe”, tratei logo de tentar entender aquela curiosa placa. Rastreando meus arquivos culturais e festivos, encontrei duas informações que me pareciam válidas.
Essa placa faz alusão ao nobre professor Girafales, que em seu estado nervoso repetia sempre o “tá tá tá tá tá”.
Fazia todo sentido, afinal, o seriado Chaves é sempre lembrado e ainda mais agora com a morte recente do astro principal. Só não jurei certeza porque a segunda informação também tinha valor relevante.
Só pode ser referência aquela metralhadora tão bem vocalizada pelos Engenheiros do Hawai no sucesso “era um garoto que como eu”. Batata! Tinha que ser isso! E a homenagem era merecida, aquele “tá tá tá tá tá” da canção é vibrante e contagia a todos.
Em qualquer uma das duas hipóteses eu estava satisfeito. A placa era mesmo necessária para nos trazer à mente essas ricas lembranças que os jovens mantém aquecidas. Ledo engano!
Eu mal tinha terminado meus estudos sobre a placa, começou a tocar uma música que mobilizou uma correria em direção a mesma. Meninas disputavam o direito de ouvir a canção erguendo aquele “tá tá tá tá tá”. Para meu desencanto, no lugar do professor Girafales e da guitarra dos Engenheiros, o mistério se revelou na frase “Sente cheiro de whisk e a precheca dela atira tá tá tá tá tá tá tá tá”. Errei feio, errei rude! Atirei errado. Me sentindo um estranho fora do ninho e totalmente desarmado, enchi o copo de cerveja e voltei pra casa ouvindo Beatles e Rolling Stones.

FABRÍCIO ARRUDA

IMG_0606-0.JPG

Dona Ernestina Arruda não chegou a ser minha vó, faleceu antes que meu pai se casasse num final de mês de agosto. Sobre seu falecimento, meu pai escreveu um belo texto que, por sua vontade, deve virar uma canção. Em um trecho ele faz referência ao final do mês de agosto: “Quando chegou o fim de agosto, bateu desgosto em meu coração e nos meus olhos se fez inverno porque o teu rosto virou verão…”.
A vida seguiu e em 1988, no fim de agosto, mais precisamente dia 30, nascia meu irmão, Fabrício Arruda.
Meu pai afirmava que a vida lhe recompensou uma tristeza com uma grande alegria. De lá pra cá o Fabrício Arruda é nosso porto seguro na felicidade para encerrar o mês de agosto.
Parabéns, Fabrício!
Leônidas, sempre!

ANTÔNIO ARRUDA

Em 1995, Antônio Arruda já tinha vivido 60 anos, dos quais mais de 47 foram acompanhados de perto pela cachaça. Em 2014, ele celebra 19 anos de sobriedade com este vídeo em que narra sua decisão de parar de beber.
Durante a gravação, Arruda manifestou a certeza de que sua atitude e coragem para enfrentar o vício foram decisivos para que ele ainda estivesse vivo para contar sua história.

CINCO ANOS SEM LEÔNIDAS

Naquela manhã de 09 de dezembro você já tinha “desaguado” a vida na maré da lembrança. O raiar do dia veio acompanhado da dor que se propunha a ocupar o espaço que você deixara, e, talvez por capricho, quis o destino que esta dor fosse tão presente quanto você foi para mim.

Pelo que pude perceber, a dor não tem planos para me deixar e, estranhamente, eu prefiro que ela fique. É como se a saudade fizesse parte daquilo que posso ter. Cada lembrança, cada exemplo, compõem no presente a posse que exerço de você na sua ausência.

Tia Terezinha foi quem primeiro me disse que essa dor não iria embora, mas que com o tempo ela ia se acomodar melhor, ia se ajeitar dentro da gente, como quem busca uma convivência pacífica.

Datas como a de hoje representam uma espécie de tempestade que deixam os sentimentos mais inquietos, mais expostos, porém, como de costume, a vida vai seguir em frente e o amor e o carinho das lembranças vão conduzir a dor de volta ao seu abrigo de paz.

Compartilho a música do meu dia.